Prazeres / Sabores

Quadraginta. Uma trilogia de vinhos em jeito de presente de despedida, por Domingos Soares Franco

Foi uma vida dedicada ao vinho, da qual se reforma com uma trilogia muito especial e um nome algo estranho Quadraginta – em latim, significa 40, representando as outras tantas vindimas em que participou. Domingos Soares Franco faz aqui uma despedida em grande, como sempre sonhou.

Foto: DR
02 de abril de 2025 | Bruno Lobo
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Não deve haver melhor saída para um enólogo do que assinar um último grande vinho. Domingos Soares Franco assinou três, um branco muito especial, com uvas de Trás-os-Montes e de Azeitão, um tinto cheio de elegância e longevidade, e um Moscatel de Setúbal que é, nas suas palavras, "o melhor de sempre, excetuando, talvez o de 1955". Sem massa crítica para confirmar a afirmação – há vários moscatéis mais antigos e alguns das décadas de 1960 que não nos importávamos de experimentar – podemos concordar, pelo menos, que sim, é o melhor que já provámos.

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Ao longo dos últimos 40 (e poucos) anos, Domingos e o irmão António Soares Franco foram a cara da José Maria da Fonseca. Domingos no terreno, enologia e viticultura, e António na gestão e vertente comercial. Durante esse tempo modernizaram e acrescentaram valor àquela que é a mais antiga empresa vínica de Portugal, fundada ainda em 1834 por esse antepassado José Maria. Ao longo de quase 200 anos, e muitos altos e baixos, a empresa permaneceu nas mãos da família e tanto Domingos como António – que se mantém como CEO − representam a sexta geração à frente dos seus destinos. Estando o futuro aparentemente assegurado, pois os seus filhos há muito que estão envolvidos ativamente na gestão da empresa.

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"O meu pai sempre me disse para nunca esquecer as raízes, mas também nunca ter medo de inovar" recorda-se Domingos, cuja carreira, hoje todos o reconhecem, foi marcada por uma força disruptiva que o levou a fazer experiências com diferentes castas, modernizar métodos e técnicas vinícolas, ou apostar em perfis de vinho mais elegantes, mesmo quando o país procurava concentração. Ajudou ter sido o primeiro português saído da Universidade de Davis, na Califórnia, mas nesses primeiros anos da década de 1980, e num país, ainda isolado e preso às tradições, o choque era inevitável. Foi como se tivesse aterrado um extraterrestre.

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As pazes foram-se fazendo e para a história ficam alguns moscatéis memoráveis − o quanto, provavelmente, só vamos perceber daqui por muitos anos. Uma aposta precoce nas talhas, que ainda compravam por dezenas de escudos, vinhos como o Hexagon, uma verdadeira sinfonia de castas ou até o relançar dos Torna Viagem, os vinhos que faziam essas grandes travessias atlânticas que os marcavam positivamente. "Dizem que o vinho quer estabilidade, mas eu acho que não. O chocalhar no mar, o sal, as diferenças de temperatura… Tudo isso faz o vinho evoluir à volta de 20 anos", dizia na altura.

Agora, claro, temos esta Quadraginta, uma trilogia que pode ser vendida em conjunto ou separado, com vinhos que sempre sonhou fazer.

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Quadraginta branco 21

Um branco "nacional", com metade das uvas provenientes de Trás-os-Montes e a outra metade de Azeitão. Na verdade, são 46% de Riesling, que foi buscar a uma vinha do "meu colega e amigo" Paulo Hortas, perto de Saborosa, plantadas a uma cota de 750 metros. "Andava há muitos anos atrás destas uvas", admite. Depois, temos Antão Vaz (44% de uma vinha com 30 anos na Herdade de Algeruz) e mais 10% de Alvarinho, este da Quinta de Camarate, numa vinha já dos anos 1950. Mas o segredo está nos tempos de estágio em madeira de segundo ano (Carvalho francês Taransaud T5, que considera o melhor) e em inox, o que resulta num vinho "com madeira quanto baste", boa acidez e muito corpo. Tem já uma bonita cor amarelada, a tender para o dourado. É um vinho cheio de nuances e um prazer. Preço: 98 euros

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Quadraginta Tinto 2017

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"Este leva a minha querida Touriga Francesa, para mim a melhor casta tinta nacional", assim como Aragonez e Castelão. Quase todos da herdade de Algeruz, embora parte do Castelão venha da Serra da Arrábida. Teve pisa a pé em lagares de inox e estágio em madeira nova (Taransaud T5, como não podia deixar de ser) durante 15 meses. Saiu muito elegante com taninos polidos, evoluído. Notas de esteva e especiarias, a par com fruta mais vermelha. Preço: 190 euros

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Quadraginta Moscatel de Setúbal 1998

"O João Nicolau de Almeida foi um dos culpados deste Moscatel", começa por explicar. "Foi ele quem teve a ideia de experimentar as aguardentes de Armagnac e Cognac para fortificar o vinho, mas lá em cima (leia-se no vinho do Porto) não o podia fazer e cá em baixo podíamos". Os dois amigos trocaram ideias e Domingos aceitou fazer o teste "com uma condição: o nome dele seria sempre mencionado quando apresentássemos um vinho com essas características". Foi assim que nasceram os Coleção Privada Domingos Soares Franco D.O.C. Moscatel De Setúbal Armagnac ou Cognac, mas logo em 1998 Domingos decidiu igualmente fortificar um lote utilizando as duas aguardentes e em partes iguais. Esse lote ficou armazenado nas caves da JMF até aos dias de hoje, para servir, apropriadamente como protagonista nesta sua despedida. É um Moscatel muito macio, com um equilíbrio perfeito entre doçura e acidez, redondo. Preço: 220 euros

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Nenhum destes vinhos, branco e tinto, são para ser bebidos a temperaturas mais frias. Recomenda-se uns 14 graus para o branco e 18 para o tinto, e sobretudo a abrir com a maior antecedência possível, para que possa ir respirando, o que necessita para mostrar toda a sua qualidade e complexidade. O dia anterior não é errado. Já o Moscatel, deve ser servido a 12 graus. O Pack da Trilogia Quadraginta tem um P.V.P. recomendado de 500 euros.

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